Deise, uma pioneira da acessibilidade Experiências pessoais movem ações de funcionária da Biblioteca Central Cesar Lattes


Fabiana Bonilha é mestre e doutora em música pela Unicamp e hoje lidera uma equipe no Centro Nacional de Referência em Tecnologia Assistida (CTRA) do CTI Renato Archer, em Campinas. Viviane Missio, pedagoga pela mesma instituição, obteve excelente classificação em um concurso e hoje trabalha na Prefeitura de Valinhos. Marcos Valim foi o primeiro a circular pela Unicamp com um cão guia por perder a visão durante o doutorado.
Com o apoio oferecido pelo Laboratório de Acessibilidade da Biblioteca Central Cesar Lattes (LAB-BCCL) e de um monitor pôde chegar ao título de doutor em química. Essas conquistas, envolvendo três pessoas cegas acima citadas, fazem brilhar os olhos de Deise Tallarico Pupo, coordenadora e uma das idealizadoras do LAB. Todos os dias ela comemora as histórias que o LAB ajudou a escrever. Enredos propiciados pela realização de um sonho seu e de outras amigas da Universidade: a biblioteca acessível.
Como diz o diretor da BCCL, Luiz Vicentin, o LAB é mais um filho na vida de Deise. Mas ela faz questão de dizer que não é fruto de uma só cabeça, mas de várias. Confessa ser o lugar onde ela se realiza a partir das conquistas dos estudantes que saem de lá rumo ao mercado ou à carreira acadêmica. E onde assiste à recuperação do próprio filho, Fábio, vítima, aos 5 anos, de um acidente que lhe acarretou deficiência motora e de fala. Fábio faz parte de um grupo de quase 700 pessoas da comunidade externa à Unicamp já beneficiadas pela infraestrutura do espaço desde 2003, ano em que o LAB foi aberto para a comunidade. Sua história foi inspiração para a mãe querer modificar histórias de pessoas com as quais não tinha nenhuma relação. “Mesmo antes do acidente do Fábio, eu já pensava em acessibilidade. Eu tinha uma ligação muito forte com a questão da deficiência desde que eu tinha me casado. Parece que as coisas caem em nosso colo quando já temos uma ligação”, pontua Deise.
A partir da leitura de sua própria história, ela tentou reescrever a de centenas de desconhecidos, hoje amigos. Seu outro filho, Cláudio, também foi vítima de acidente de trânsito em 1999 e faleceu em 2002. Neste momento, o projeto já estava em andamento, mas, mais uma vez, ela transformou sua dor em luta e passou a se dedicar ainda mais ao projeto e publicar artigos sobre seus resultados. Em 1992, questões pessoais que incluíam o tratamento e a reabilitação de Fábio levaram Deise a mudar-se para São Carlos, onde trabalhou, comissionada, na Universidade Federal (UFSCar). Lá também integrou uma ONG, foi diretora da escola onde Fábio estudava, além de trabalhar em uma biblioteca comunitária. Em sua volta à Unicamp, sua experiência chamou a atenção da então bibliotecária responsável pela Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Maria Alice Rebello Nascimento, que a acolheu, além de encomendar um projeto de biblioteca adaptada, como faz questão de lembrar Deise. “O acidente de meu filho me levou a um aprofundamento sobre o assunto e deparei com uma fatia grande da população ainda fora dos processos. A Maria Alice soube reconhecer minha experiência. Fiquei sem lugar ao voltar, mas ela abriu as portas do IFCH para mim”, acrescenta.
Começou então a redigir o projeto de uma biblioteca acessível, que pudesse atender alunos, professores e funcionários com deficiência física; mas, ao longo de sua elaboração, as pessoas com deficiência visual manifestaram-se e argumentaram para se tornarem também seu público-alvo, devido às inovações tecnológicas que já os beneficiavam. Devido a mudanças administrativas, o projeto do LAB migrou para a Biblioteca Central e, aos poucos, foi atraindo um número grande de pessoas cegas, entre as quais o violonista e professor convidado do Instituto de Artes Vilson Zattera. A área de tecnologia da informação e da comunicação é responsável por atrair este público, que a cada dia pode desenvolver de forma autônoma suas pesquisas e outros trabalhos. Esta é exatamente a missão de Vilson na Unicamp, aprimorar softwares para que estudantes e docentes cegos tenham mais autonomia para escrever sua própria partitura e fazer arranjos, entre outras atividades. “Essa interface que os softwares fazem com usuários cegos ou de baixa visão é extremamente importante”, complementa Deise. Hoje, alguns usuários escaneiam o próprio material num software e levam para casa para ouvir em mp3, conforme Deise.
Sem funcionários, Deise faz questão de enfatizar o envolvimento dos alunos bolsistas. Muito deles continuam se dedicando às atividades no LAB, auxiliando usuários com deficiência mesmo tendo vencido o período de bolsa. A presença dos jovens é de grande valor para o LAB, segundo Deise, por dominarem a tecnologia de ponta utilizada por alunos e professores cegos, como leitor de telas. De acordo com Deise, os jovens acabam se envolvendo com as áreas e com as pessoas da Biblioteca Central. Mesmo assim, o laboratório espera na certificação a oportunidade de aumentar seu quadro de funcionários. O LAB contou com a colaboração das pedagogas Sílvia Carvalho e Regina Govoni, do Centro de Reabilitação Gabriel Porto, agora aposentadas. Atualmente, as atividades são compartilhadas com a pedagoga Magali Arnais, vinculada ao Dedic.
Hoje, muitas famílias já sabem que podem ter o LAB como ponto de apoio. Um caso emblemático da importância do envolvimento da família, para Deise, é o da estudante Franciele Cristina Penteado. De acordo com a bibliotecária, a estudante perdeu a visão da noite para o dia por problema no nervo óptico, e o apoio para concluir o ensino médio partiu dos pais. Francielle passou no vestibular para o curso de Gestão de Empreas da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), em Limeira, em 2010. Os professores do curso encomendaram uma palestra do LAB para que pudessem ajudá-la e, a partir de então, a transcrição do material ficou a cargo da equipe de Limeira.
Ao compartilhar a realização de muitas famílias, Deise hesita em pronunciar a palavra aposentadoria. Cada palavra sugere que a dedicação entre ela e o LAB é mútua. “Sinto-me realizada porque em um momento muito difícil de minha vida pessoal, que foi a perda do Cláudio, eu vim para cá trabalhar em benefício de outras pessoas”. Ao tentar traduzir as percepções sobre si mesma, sobre ajudar se ajudando, declara que a Deise mãe, além de dar atenção ao Fábio, a suas duas filhas e a sua mãe, com Mal de Alzheimer, pôde exercer sua profissão ajudando pessoas que não teriam condições de ler ou estudar sendo um degrau importante de acessibilidade e inclusão dessas pessoas na graduação e na pós da Unicamp. Além disso, teve a Unicamp como parceira no desenvolvimento de Fábio, que, por acompanhá-la teve a oportunidade também de pesquisar, utilizar computadores e interagir com as pessoas que passam e atuam no LAB. Ao ver o personal Raphael de Jesus Pinto, ex-bolsista, também assistente do professor Vilson, adentrar o laboratório, Fábio faz a festa e, quando o assunto é família, participa da entrevista elogiando os músicos da família.
Em 1999, a portaria 1.679 determinava acessibilidade nas universidades para que todos os alunos com deficiência tivessem as devidas condições de concluir seus cursos. Caso contrário, não seriam credenciadas pelo MEC. Assim, as universidades foram construindo rampas e projetando espaços mais acessíveis, porém, o caminho é longo. Pode-se dizer que a Unicamp é uma das pioneiras em biblioteca acessível no ensino superior, segundo Deise. Em 1999, o projeto viabilizou a compra de uma cadeira que possibilita a circulação de usuários com deficiência em andares superiores e ainda pode ser utilizada em caso de emergência, como incêndio. Mas somente em 2000 a conscientização começou a crescer. 
Como uma das iniciativas responsáveis por abrir os olhos da comunidade acadêmica para inclusão, Deise cita o Projeto Todos Nós e o Núcleo de Informática Aplicada à Educação (Nied). “Vejo a inclusão acontecendo a partir da participação de alunos como a Fabiana, o Vilson, a inclusão que a professora Maria Teresa Egler Mantoan nos transmitiu. Entendemos como as pessoas com deficiência precisam estar em todos os lugares. Porque são eles que fazem a diferença em nosso trabalho”, acentua Deise.
A Deise que um dia passou por projeto de reciclagem pessoal, começou catalogando a Biblioteca Sérgio Buarque de Holanda (SBH), foi bibliotecária de referência, trabalhou no IFCH, chefiou a biblioteca do Instituto de Estudos de Linguagem (IEL), hoje é convidada a apresentar trabalhos em congressos. Com o envolvimento do diretor Luiz Vicentin e da coordenadora Valéria dos Santos Gouveia Martins, ela se sente privilegiada por ter passado tantos anos no LAB. “É muito gratificante ver isso acontecendo na prática. Temos de continuar. A batalha está sendo vencida aos poucos, mas são essas conquistas e o sucesso de nossos usuários que nos levam a prosseguir até às maiores vitórias: essa é a nossa maior recompensa”.


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